8 de dezembro de 2009

Aguaviva


Chego aqui e escrevo ao ar, porque de alguma forma, nessa caverna fria, atravancada com as milhares de coisas que enfio aqui mentalmente quase todos os dias, me sinto mais em casa do que em qualquer outro lugar.
Acendo a fogueira do chão que tento todos os dias não umidecer com suor ou mágoa e fico contemplando a chama arder até o fim. Às vezes só fico ali, horas a fio vendo cada fibra de graveto queimar e me esqueço porque cheguei ali, porque a minima luz dançante me arrebata.
Às vezes tiro a roupa, porque ela me queima ou me arranha. E então me deito no chão e me torno o todo, olhando para o teto de pedra com suas sombras oniscientes, e elas me observam sem avançar. Dançam e se elevam até quase me tocar em um balé que me hipnotiza.
Vejo que tem muitas coisas enfileiradas sem ordem, muitas coisas penduradas toscamente nas paredes, dentro de caixas que não fecham e muitas coisas pela metade. Penso que eu deveria terminá-las ou movê-las de lugar, mas então já é dia e tenho que ir embora.
No outro dia penso a mesma coisa, mas então a ideia não me parece tão tentadora.
Olho para o fundo do poço que ocupa um canto iluminado e ele está vazio. Grito lá dentro e ele não responde. Da harpa que eu joguei la dentro ainda ouço alguns acordes, que ecoam friamente na pedra e me tocam quando estou dormindo.
É claro que isso não teria um fim, ou não seria (m)eu.

Amanhã tenho que mover as minhas coisas de lugar, ou terminá-las.
Talvez eu as jogue no poço porque ouvi dizer que ele não tem fim.

2 de novembro de 2009

Alles wieder (2)

Peguei o telefone e pensei em ligar. Também pensei que às 5 horas da manhã eu seria ignorada, mesmo porque à esse horário, talvez, se você atendesse o telefone eu não saberia o que dizer. Cairia num looping de surpresa onde eu sempre desligaria o telefone por impulso ao ouvir sua voz.
Penso que eu deveria dar uma continuação a tudo isso, ou que a continuação seja um fim. Penso que existe no meu subconsciente um vicio de ilusão, como num filme.
Lembrei que eu estava vivendo em uma foto em preto e branco e que quando éramos anjos, o mundo era perfeito e eu sabia que era.
E descobri em uma fração do meu tempo infinito, que toda a minha ínfima força, vem dessas lembranças de coisas que não voltam.

Alles wieder.

1 de novembro de 2009

SerHumano


Eu e ela, manhã de um sábado qualquer nas ruas de Porto Alegre, paramos para descansar antes de continuarmos a andar sem rumo.
- Acho que isso é mais do que simplesmente um hábito. Acho que é um exercício social. Faz com que a gente se sinta bem. Faz com que algo no nosso estômago reviva aquelas borboletas, sabe quais?
- Sei. As borboletas. Tá.
- Então. Não vejo nada de errado em flertar. Acho saudável.
Talvez eu acreditasse nas palavras dela. Daqueles olhos negros saiam o olhar mais letal que eu já tinha visto. Morri algumas vezes quando eles conseguiam me acertar de cheio sem querer. Ainda não sei se gosto de estar ao lado dela quando ela ativa aquilo, seja lá o que se chama. Era como se algumas cordas amarrassem de leve meus tornozelos e braços, passando por meus dedos e roçassem minha nuca de leve, morno. E então iam apertando, apertando... Até que eu me esquecia de respirar. Uma tontura doce envolvia minha cabeça e eu saia de mim por alguns instantes.
Intimamente eu gostava daquilo. Prender-me por uns instantes nos olhos ônix dela enquanto ela errava o olhar e ele ia parar em mim; Eu podia sentir o gosto forte da pele dela se me demorasse o suficiente.
- Acha mesmo que isso funciona? Quero dizer, lançar toda essa carga sexual encima das pessoas. Isso não é perigoso?
Ela mexia constantemente nos cabelos e passava a mão no pescoço nu. Eu via a pele transparente dela latejar. Tomava um suco de morango artificialmente colorido e perfumado.
- Não, acho que não. Eu não sei se faço de propósito. Eu só sou eu. Claro, é como aquela sensação que todo mundo busca, de estar vivo. As pessoas tem formas diferentes de lidar com o que aparecem. - Ela tomou um longo gole com os lábios rosados na beira do copo. E então lambeu os lábios me atravessando com um longo olhar profundo. E então foi como se eu estivesse nua e um arrepio transcorreu de leve a minha espinha. Minha primeira reação foi querer sair correndo. depois, foi como se eu estivesse caindo, as minhas entranhas correndo desesperadas dentro de mim. Mas então eu voltei pro chão. Foi como se eu estivesse sem órgãos por um instante. Minhas mãos formigaram, e eu pisquei devagar meio fora de mim.
- Por que você está me olhando desse jeito? - Ela me perguntou sustentando o olhar.
Eu percebi então. Toda aquela névoa e aura de mistério tinham sido pra mim.
-Eu? Nada. Não é nada não.

Claro, apenas mais um exercicio social. Eu podia me acostumar com aquilo.

20 de agosto de 2009

Teardrop

Beijei castamente seu rosto e seus cabelos enquanto seus olhos lacrimejantes vidravam nos meus, absortos. Ela piscava muito pouco enquanto seguia meus movimentos com o canto dos olhos. Suas sobrancelhas se arqueavam. Acho que ela estava com medo.
Ela fechou os olhos e chorava baixinho enquanto eu lhe cantava alguma cantiga inventava que enchia o quarto e abafava seus lamentos. Eu estava feliz. Ela não iria sofrer mais.
Embalei-a pequena no meu colo, enquanto ela apenas contorcia-se e balbuciava algum lamento abafado entre meus cabelos. Eu disse que entendia, porque queria entender, e chorava, porque a beleza dela me tomava de tal forma que eu perdia o controle sobre o que eu julgava ser verdade ou mentira, ou mesmo as duas ou a minha imaginação fértil.
Em meio às lágrimas, ela me lançou um meio-sorriso tímido, um rabisco de emoção lúcida. Durou um segundo, mas estava lá, seu olhar de trovão fixo em mim e um sorriso obliquo dependurado em uma moldura de olhos chuvosos.
Claro, o tempo parou. Eu parei. E o mundo pareceu girar devagar, como nos filmes.
Eu tive mais um segundo para pensar (ou organiza-los de forma racional) e no próximo eu estava respondendo ao sorriso dela como meu sorriso mais espontaneo-bobo que eu poderia expressar.
Aquele momento escorreria pelas minhas mãos no próximo pensamento, mas eu não o perderia. A partida dela da minha vida não poderia ficar mais na minha memória do que aquele segundo.

Apenas um segundo.
O suficiente para que o meu mundo parasse de girar.

26 de julho de 2009

Blackjack

Nota mental: É claro que Pan não deixaria de vir. Ouço ele cantando e dançando e ruidosamente batendo os cascos no piso do meu quarto propositalmente roxo. Seja bem-vindo, criança.



Não me culpo mais por querer tudo de volta. Mas sei que é uma atitude egoísta querer que as coisas voltem como eram antes, eu mudei, nós mudamos.
Preciso de contato. Preciso saber que estão bem... e bem... achei que essa seria mais uma noite em que eu estaria vigiando o coma pesado da personificação de tudo o que eu prezo... onde ele estaria respirando pesadamente enquanto eu estaria contando seus fracos batimentos cardiacos ao lado da cama asséptica. É claro, eu assinei os papéis para deixá-lo ali, sedado, parado no tempo, mas não consegui. Foi uma atitude responsável, but i don't want this anymore. Not for me.
Quis mover seus dedos, aumentar seus batimentos cardiacos, fazer sentir medo, ódio, angustia, alegria, qualquer coisa... Quis fazê-lo sentir, reagir. Com os meus lábios indecisos beijei o contorno do seu queixo e seus lábios mornos. Ouvi sua respiração pesar vagarosamente, e seus olhos ônix abrirem diretamente na minha direção.
Houve um baque surdo na minha mente. Eu podia movê-las. As montanhas, e eu faria chover nelas. E as flores, eu faria brotá-las do chão e encher o ar com cores.

Eu tive muito medo, um medo primitivo. E ainda sinto que poderia ter perdido vocês dois porque não fui rápida o suficiente, porque fui cega demais, porque acreditei que seria possivel esquecer, mudar minha vida, meu endereço, meu telefone e meu corpo para que ele fosse menos receptivo à coisas que me deixam tão frágil.

Preciso vê-los, preciso provocar a tempestade em mim, preciso provar pra mim mesmo que é possivel. Ou que definitivamente, meses de loucura não valeram de nada. Preciso definir a faixa que determinou o fim (ou o começo de tudo).



Bem... Meu nome é Jéssica. Fiz 21 anos, mas parei de contar intelectualmente quando ainda tinha 17. Trabalho numa multinacional há quase um ano, mas isso pra mim quase não faz diferença. Não faço o que gosto, mas acho que gosto do que eu faço. Coloquei aparelho ortodontico à quase oito meses. Me sinto portando uma armadura medieval dentro da boca.
Fui uma boa menina esses ultimos tempos: comprei um carro, mantive um relacionamento de mais de um ano, chorei o bastante para aprender que esse tipo de coisa só se faz escondido caso não queira chocar as pessoas. Adquiri medo de andar de moto, mas é quase como ir contra meus instintos. Enquanto eu ando é como se eu tivesse 152 pessoas gritando na minha cabeça "Pare a moto agora! você vai se matar!", mas eu aprendi a me divertir com esses avisos.
Não bebo há muito tempo, não lembro qual foi a última vez que fiquei bêbada de verdade. de repente, beber virou algo que eu faço pra voltar no tempo ou simplesmente não me importar com que os outros irão pensar de mim quando me virem chorando. Aliás, eu aprendi a chorar sem fazer careta. Me faz parecer menos dramática.
Eu ainda sou dramática, muito. E agora, quando me canso, eu só fico mais e mais complacente (embora ache que sempre fui assim, agora eu achei um nome pra isso).
Ainda danço pra externar a dor, a tristeza, a frustração... E é como drenar um vulcão.
Tenho feito menos passeios, tenho saido menos. Não me importo de permanecer ao seu lado como mais uma. Temos vidas paralelas, o mundo não parou de girar. Não me importo... Desde que eu esteja lá, não pode doer mais do que já dói ou doeu... Alimentar amor com loucura já foi doloroso bastante pra que durasse tanto mais tempo. Preciso alimentá-lo com fogo.
Todos os dias penso em vocês. São coisas pequenas - Como eu gostaria que eles estivessem aqui comigo; Como eu gostaria que ela visse isso; Como esse lugar seria mais divertido com ele. Ainda amo vocês e a intensidade ainda é a mesma... Afinal o ódio nunca foi o contrário do amor, só um irmão destrutivo...
Sempre tive medo de sentir a indiferença. Em meus pesadelos com vocês, meu maior medo estava lá... Em um dado momento eu não sentia nada e ia embora, como se não conhecesse vocês, totalmente chocada com o que havia acontecido e diversas perguntas vagueavama minha mente: "Por que? Amor? Alegria? Frustração? Medo? Ódio? Alguma coisa? NADA? SIMPLESMENTE NADA?"
Eu ainda vou ser a criança com cabeços dourados, visitando o imaginário de um parque de diversões, mas se me virem de perto ainda estarei esquiva, porque as queimaduras ainda doem e nada volta de uma hora pra outra. Estou consciente de que não somos os mesmos, não por fora.

Não lembro do tom de voz de vocês. Eu lembro do calor das vozes, mas não do tom. It makes me sad.

Eu lembro um dia em que ela foi à minha casa e disse que éramos estranhas uma para a outra, outras pessoas. eu ainda me recuso a não enxergar vocês dentro disso tudo que a gente se tornou. Eu quero lutar, foda-se o mundo, eu quero lutar mais uma vez. Eu quero enlouquecer de vez ou colocar tudo no lugar, meu Deus, como eu quero!

Preciso de contato crianças. Um telefone, um e-mail ao qual ainda usem, msn, horários.
Ainda vamos nos ver de perto antes que tudo acabe?